quinta-feira, 13 de junho de 2013

Para o Dia dos Namorados ...

Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar ?
Amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar ?
Sempre, e até de olhos vidrados, amar ?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar tambem, e amar ?
Amar o que o mar traz á praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia ?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implicíta, e o beijo tácito, e a sede infinita.


Carlos Drummond de Andrade.